Abril 15, 2026
Prémio Floresta é Sustentabilidade ! 5.ª edição

Prémio Floresta é Sustentabilidade

A floresta e as alterações climáticas

Da gestão da árvore à gestão do território

Vencedores da 5. edição

Rui Ladeira: “Vamos lançar medidas para apoiar a reconversão e a reinstalação de áreas florestais e tornar os Planos de Gestão Florestal mais digitais e mais simplificados.”

“A ação não pode con­ti­nuar a ser adi­ada”

Antó­nio Redondo aler­tou para a urgên­cia de uma flo­resta resi­li­ente face à vari­a­bi­li­dade cli­má­tica, ape­lou a uma mudança de para­digma na ges­tão flo­res­tal e adver­tiu para o agra­va­mento do risco asso­ci­ado à bio­massa acu­mu­lada após as intem­pé­ries.

Filipe S. Fernandes

“A flo­resta por­tu­guesa vive hoje sobre uma pres­são cres­cente que não pode ser lida como um fenó­meno epi­só­dico. Importa assu­mir com rigor que não há solu­ções sim­ples, mas tam­bém reco­nhe­cer que não nos esta­mos a pre­pa­rar enquanto país para esta nova rea­li­dade”, afir­mou Antó­nio Redondo, pre­si­dente da Biond, durante o encer­ra­mento da ceri­mó­nia de entrega de pré­mios da 5.ª edi­ção do Pré­mio Flo­resta é Sus­ten­ta­bi­li­dade, ini­ci­a­tiva da Biond em par­ce­ria com o Negó­cios e o Cor­reio da Manhã.

Para Antó­nio Redondo, a raiz do pro­blema é estru­tu­ral e mul­ti­di­men­si­o­nal com a frag­men­ta­ção fun­di­á­ria, a ausên­cia de orde­na­mento efe­tivo, a difi­cul­dade emtra­du­zir o conhe­ci­mento téc­nico-cien­tí­fico em polí­ti­cas públi­cas e, sobre­tudo, inca­pa­ci­dade de exe­cu­tar com rapi­dez aquilo que suces­si­va­mente se iden­ti­fica como pri­o­ri­tá­rio. Este cená­rio foi agra­vado pela tem­pes­tade Kris­tin, que “devas­tou exten­sas áreas, dei­xando no ter­reno gran­des volu­mes de mate­rial lenhoso que, não sendo rapi­da­mente remo­vi­dos ou geri­dos, aumen­tam dra­ma­ti­ca­mente a carga com­bus­tí­vel e expo­nen­ciam o risco para o pró­ximo verão, ilus­trando bem este novo ciclo em que fenó­me­nos extre­mos se suce­dem e se refor­çam mutu­a­mente”, con­si­de­rou Antó­nio Redondo.

O pre­si­dente da Biondi fez uma aná­lise quan­ti­ta­tiva a par­tir de dados públi­cos para ilus­trar a dimen­são real da bio­massa acu­mu­lada após as intem­pé­ries de janeiro e feve­reiro. Se nos mais de 60 con­ce­lhos afe­ta­dos, que con­têm cerca de 855 mil hec­ta­res de flo­resta, “só tiver­mos 25 mil hec­ta­res a neces­si­tar de inter­ven­ção — o que não chega a 3% dessa flo­resta, estes são os dados do Governo — e se o volume de madeira tom­bada ou par­tida, acu­mu­lada no solo, não for supe­rior a 60 metros cúbi­cos por hec­tare, o que é um pres­su­posto igual­mente muito con­ser­va­dor, o volume de bio­massa lenhosa é 3 a 6 vezes supe­rior aos com­bus­tí­veis finos acu­mu­la­dos na flo­resta aban­do­nada. Dito de outra forma, o volume que estará acu­mu­lado nes­tes 25 mil hec­ta­res cor­res­pon­derá a pra­ti­ca­mente um terço do con­sumo da indús­tria de pasta e papel de euca­lipto durante um ano”.

A fileira do euca­lipto como modelo de res­posta

Perante a inér­cia do Estado, Antó­nio Redondo des­ta­cou o que a Biond e os seus asso­ci­a­dos já demons­tra­ram ser pos­sí­vel exe­cu­tar no ter­reno. Entre 2019 e 2023, inter­vi­e­ram em 110 mil hec­ta­res em cinco anos, com aumento da pro­du­ti­vi­dade em mais de 20% e a redu­ção do risco de incên­dio em 3,3 vezes. A par­tir deste balanço lan­çou um desa­fio direto ao Governo. “Uma fra­ção minús­cula dos mais de 700 milhões de euros que se gas­tam anu­al­mente no com­bate aos incên­dios rurais, se apli­cada dire­ta­mente em favor das cen­te­nas de milha­res de pro­pri­e­tá­rios flo­res­tais, pode­ria facil­mente dupli­car ou tri­pli­car os resul­ta­dos do esforço da Biond. Não é pre­ciso inven­tar nada. Se nada se fizer, é por­que nada se quis cons­ci­en­te­mente fazer e o país, no tempo pró­prio, jul­gará essa falta de von­tade”, sub­li­nhou.

Antó­nio Redondo encer­rou a sua inter­ven­ção sub­li­nhando que o pro­blema não é de conhe­ci­mento, mas de von­tade polí­tica, e ape­lando a uma mudança de para­digma que colo­que a flo­resta no cen­tro da estra­té­gia de resi­li­ên­cia e sobe­ra­nia do país e que se passe do diag­nós­tico à ação. Como diz, implica “pas­sar de um país que diag­nos­tica exaus­ti­va­mente os seus pro­ble­mas para um país que os resolve com deter­mi­na­ção no ter­reno e não no Power­po­int. A ação não pode con­ti­nuar a ser adi­ada”.

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A impor­tân­cia da pro­te­ção civil e da valo­ri­za­ção da madeira

Rui Ladeira anun­ciou a cri­a­ção de 22 Áreas Inte­gra­das de Ges­tão de Pai­sa­gem (AIGP), dota­das de um meca­nismo de 40 milhões de euros, a que se junta uma linha de cré­dito de 35 milhões de euros para pres­ta­do­res de ser­vi­ços e empre­sas da fileira flo­res­tal.

Filipe S. Fernandes

O secre­tá­rio de Estado das Flo­res­tas, Rui Ladeira, fez refe­rên­cia ao tra­ba­lho e ao papel da fileira do euca­lipto na res­posta aos efei­tos das tem­pes­ta­des, como a Kris­tin, no país e na região Cen­tro em par­ti­cu­lar, em que se pro­cu­rou “man­ter o valor, dar um con­forto aos pro­pri­e­tá­rios, aos inter­ve­ni­en­tes do setor de que não há uma des­va­lo­ri­za­ção do mate­rial, do patri­mó­nio, seja indi­vi­dual, cole­tivo, empre­sa­rial, e que esse valor na cadeia é con­si­de­rado e é tido em conta e não foi des­va­lo­ri­zado”. Salie­n­tou na ceri­mó­nia de entrega de pré­mios da 5.ª edi­ção do Pré­mio Flo­resta é Sus­ten­ta­bi­li­dade.que “o sinal que deram as indús­trias, em par­ti­cu­lar as que estão aqui repre­sen­ta­das atra­vés da Biond, é posi­tivo e é de enal­te­cer e agra­de­cer”.

Rui Ladeira refe­riu a impor­tân­cia de ques­tões de pro­te­ção civil, da valo­ri­za­ção da madeira e do mate­rial que está tom­bado, e da forma mus­cu­lada de res­posta para garan­tir as aces­si­bi­li­da­des. A este pro­pó­sito, deu o exem­plo da dis­po­ni­bi­li­dade de “50 milhões de euros para capa­ci­tar as comu­ni­da­des inter­mu­ni­ci­pais com máqui­nas de ras­tos. São 18 no país e, nesta região em par­ti­cu­lar, são cinco, para esta­rem a ope­rar para garan­tir as aces­si­bi­li­da­des para a ges­tão flo­res­tal, mas tam­bém para a pre­ven­ção con­tra incên­dios e a pro­te­ção civil”.

PEPAC e euca­lipto

Fez ainda o anún­cio da cri­a­ção de 22 Áreas Inte­gra­das de Ges­tão de Pai­sa­gem (AIGP), dota­das de um meca­nismo de 40 milhões de euros, a que se junta uma linha de cré­dito de 35 milhões de euros para que pres­ta­do­res de ser­vi­ços e empre­sas da fileira tenham tesou­ra­ria para com­prar e arma­ze­nar maté­ria-prima, asse­gu­rando a capa­ci­dade de esco­a­mento nos pró­xi­mos meses. O Ins­ti­tuto da Con­ser­va­ção da Natu­reza e das Flo­res­tas (ICNF) lan­çará has­tas públi­cas e cri­ará par­ques de madeira para acon­di­ci­o­nar o mate­rial tom­bado até que as con­di­ções de mer­cado sejam mais favo­rá­veis, salie­n­tando que foram impac­ta­dos cerca de 1200 hec­ta­res de matas públi­cas, em que há áreas com mais de 90% de des­trui­ção em Lei­ria, região de Alco­baça e Nazaré.

Anun­ciou ainda que, no âmbito do PEPAC (Plano Estra­té­gico da Polí­tica Agrí­cola Comum 2023-2027), será lan­çada uma medida para per­mi­tir a recon­versão e a rein­s­ta­la­ção de áreas, por exem­plo, da fileira do euca­lipto. “Garan­tir apo­ios e que estas áreas tam­bém são con­si­de­ra­das e apoi­a­das com os recur­sos públi­cos, que será a medida, vamos lan­çar duas, a 325 pro­mo­ção de ser­vi­ços de ecos­sis­te­mas, 20 milhões de euros, e melho­ria do valor eco­nó­mico das flo­res­tas, 10 milhões de euros”. Rui Ladeira refe­riu ainda que estão a “ulti­mar uma pro­posta de garan­tir que os Pla­nos de Ges­tão Flo­res­tal (PGF) sejam uma coisa com­ple­ta­mente dife­rente do que tem sido até hoje. Fazer com que sejam mais digi­tais, mais tec­no­ló­gi­cos e mais sim­pli­fi­ca­dos naquilo que é a inten­ção de uma estra­té­gia, seja para o pro­pri­e­tá­rio indi­vi­dual ou à escala da pai­sa­gem, de modo cole­tivo”.

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O desa­fio não é pla­near mais, é deci­dir melhor e exe­cu­tar

Miguel Frei­tas, pro­fes­sor na Uni­ver­si­dade do Algarve e ex-secre­tá­rio de Estado das Flo­res­tas, pro­põe uma via­gem do Big Bang à bio­e­co­no­mia para repen­sar a resi­li­ên­cia flo­res­tal.

Filipe S. Fernandes

A re­si­li­ên­cia tem uma longa via­gem de 13,7 mil milhões de anos. Come­çou pelo Big Bang. A física, o momento da fun­da­ção, da cri­a­ção, das leis. A resi­li­ên­cia aqui é, essen­ci­al­mente, a esta­bi­li­dade das leis. O segundo momento é o tempo da quí­mica, da estru­tura, das rela­ções, das liga­ções, da resi­li­ên­cia como con­sis­tên­cia estru­tu­ral. O ter­ceiro momento, o tempo da bio­lo­gia, da ori­en­ta­ção, dos sis­te­mas de infor­ma­ção, a ideia da resi­li­ên­cia como adap­ta­ção. O quarto tempo, o tempo dos ecos­sis­te­mas ter­res­tres, da inter­de­pen­dên­cia, da resi­li­ên­cia como capa­ci­dade cole­tiva. Final­mente, a eco­no­mia, a coor­de­na­ção e a deci­são, o tempo das trans­for­ma­ções cons­ci­en­tes”, expli­cou Miguel Frei­tas, pro­fes­sor na Uni­ver­si­dade do Algarve e antigo secre­tá­rio de Estado das Flo­res­tas, que foi o key­note spe­a­ker da ceri­mó­nia dos pré­mios Flo­resta é Sus­ten­ta­bi­li­dade.

Este con­ceito de resi­li­ên­cia foi o fio con­du­tor para diag­nos­ti­car os blo­queios do setor e apon­tar as esco­lhas que, na sua visão, podem trans­for­mar a flo­resta por­tu­guesa num ativo estra­té­gico de futuro. Miguel Frei­tas jun­tou a bús­sola para evo­car a neces­si­dade de ori­en­ta­ção num per­curso mar­cado pela ten­ta­tiva e erro. A resi­li­ên­cia não é um con­ceito fixo, trans­forma-se con­so­ante a escala tem­po­ral e o sis­tema em causa, res­sal­tou Miguel Frei­tas.

Efi­ci­ên­cia e resi­li­ên­cia

“Quando fala­mos do modelo de efi­ci­ên­cia, esta­mos a falar de oti­mi­za­ção em cená­rios nor­mais. Quando fala­mos de resi­li­ên­cia, esta­mos a falar de adap­ta­ção, de adap­ta­bi­li­dade dinâ­mica, isto é, da capa­ci­dade de res­pon­der àquilo que são cho­ques, per­tur­ba­ções, e res­pon­der man­tendo as fun­ções. É tra­ba­lhando estas duas dimen­sões em con­junto que julgo que pode­mos enca­rar as res­pos­tas que pro­cu­ra­mos”, con­si­de­rou Miguel Frei­tas.

Esta recusa em opor efi­ci­ên­cia a resi­li­ên­cia, pro­pondo antes a sua con­ju­ga­ção per­ma­nente, levou-o a defen­der a pas­sa­gem de uma ges­tão cen­trada na árvore para uma ges­tão do ter­ri­tó­rio, com cri­a­ção de mosai­cos e o uso da cober­tura flo­res­tal con­tí­nua. Sobre o euca­lipto, fre­quen­te­mente acu­sado de invi­a­bi­li­zar con­so­ci­a­ções, Miguel Frei­tas foi taxa­tivo. “A ideia de que não é pos­sí­vel fazer con­so­ci­a­ções com o euca­lipto é uma ideia que não cor­res­ponde ver­da­dei­ra­mente à prá­tica. Há expe­ri­ên­cias. Vale a pena conhe­cer­mos as expe­ri­ên­cias.” Citou como exem­plo a Her­dade do Pico­tino, com 650 hec­ta­res onde euca­lipto, pinheiro, cas­ta­nheiro e sobreiro coe­xis­tem em fun­ção da expo­si­ção e da pro­du­ti­vi­dade de cada encosta, um modelo con­creto de resi­li­ên­cia apli­cada.

“Na flo­resta há mais arqui­te­tura do que enge­nha­ria, e mais enge­nha­ria do que eco­no­mia, mas pre­ci­sa­mos das três. Pre­ci­sa­mos da arqui­te­tura, de pla­nos e de pla­near a médio e longo prazo. Mas pre­ci­sa­mos de deci­dir no curto prazo. Pre­ci­sa­mos da enge­nha­ria de pro­ces­sos e de saber fazer. Mas, mais do que tudo, pre­ci­sa­mos de eco­no­mia, de mode­los de negó­cio. Pre­ci­sa­mos de mais conhe­ci­mento, de saber fazer, mas, mais do que tudo, pre­ci­sa­mos de fazer fazer”, afir­mou Miguel Frei­tas. Con­cluiu que o desa­fio não é pla­near mais, mas deci­dir melhor e exe­cu­tar com con­vic­ção.

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A flo­resta como res­tauro social e motor de adap­ta­ção cli­má­tica

Três cien­tis­tas com pers­pe­ti­vas com­ple­men­ta­res que, no essen­cial, con­ver­giam numa con­clu­são des­con­for­tá­vel. O conhe­ci­mento existe, as solu­ções estão iden­ti­fi­ca­das e o pro­blema per­siste por inca­pa­ci­dade de deci­são e de exe­cu­ção.

Filipe S. Fernandes

“Fala-se muito em res­tauro eco­ló­gico. Gosto muito de pen­sar no res­tauro do tecido social. Se as flo­res­tas de pro­du­ção forem pen­sa­das como flo­res­tas bem geri­das, pre­ci­sam de pes­soas com conhe­ci­mento para ocu­pa­rem posi­ções de emprego bem remu­ne­ra­das, como valo­ri­za­ção desse conhe­ci­mento”, defen­deu Joana Ama­ral Paulo, inves­ti­ga­dora do Cen­tro de Estu­dos Flo­res­tais do Ins­ti­tuto Supe­rior de Agro­no­mia, na mesa-redonda “A Flo­resta e as alte­ra­ções cli­má­ti­cas – Desa­fios e Opor­tu­ni­da­des”, mode­rada por Magali Pinto, jor­na­lista da CMTV, e inte­grada na ceri­mó­nia de entrega de pré­mios da 5.ª edi­ção do Pré­mio Flo­resta é Sus­ten­ta­bi­li­dade.

Este res­tauro social é tam­bém um con­tri­buto das flo­res­tas de pro­du­ção para a miti­ga­ção cli­má­tica e a redu­ção do risco de incên­dio, por­que “tra­zer as pes­soas para estas zonas tem um impacto forte nas empre­sas asso­ci­a­das à ges­tão des­tas flo­res­tas de pro­du­ção”. Con­si­de­rou serem pre­ci­sas polí­ti­cas públi­cas que as apo­iem neste sen­tido, por­que para os mode­los de negó­cio que atu­al­mente há, exis­tem desa­fios asso­ci­a­dos.

Sobre o papel da ciên­cia flo­res­tal neste pro­cesso, Joana Ama­ral Paulo escla­re­ceu que os mode­los cli­má­ti­cos e flo­res­tais já exis­tem e per­mi­tem fazer pla­ne­a­mento seto­rial de longo prazo, defi­nir que espé­cies pri­vi­le­giar nas ações de reflo­res­ta­ção e ante­ci­par quais as que, por via das alte­ra­ções cli­má­ti­cas, estão a migrar para outras lati­tu­des. A dis­cus­são sobre espé­cies como o pinheiro, o euca­lipto, as nati­vas, as exó­ti­cas, deve ser sem­pre anco­rada no conhe­ci­mento cien­tí­fico dis­po­ní­vel e não em pre­fe­rên­cias ide­o­ló­gi­cas.

Os pare­ce­res e a exe­cu­ção

“O tema das alte­ra­ções cli­má­ti­cas é um tema que pro­duz por dia pelo menos 100 arti­gos, nas melho­res revis­tas cien­tí­fi­cas, mas é um pro­blema difi­cí­limo de resol­ver, de miti­gar, atra­vés da redu­ção das emis­sões pro­ve­ni­en­tes dos com­bus­tí­veis fós­seis, por­que há paí­ses que ele­ge­ram os com­bus­tí­veis fós­seis como a sua riqueza, o fun­da­mento da sua hege­mo­nia à escala glo­bal”, afir­mou Filipe Duarte San­tos, pre­si­dente do Con­se­lho Naci­o­nal do Ambi­ente e do Desen­vol­vi­mento Sus­ten­tá­vel. O geo­fí­sico e pro­fes­sor cate­drá­tico jubi­lado da Facul­dade de Ciên­cias da Uni­ver­si­dade de Lis­boa lem­brou a dis­tân­cia que existe entre o diag­nós­tico e as deci­sões e exe­cu­ção de polí­ti­cas públi­cas. “No CNADES, faze­mos pare­ce­res e mais pare­ce­res, vamos agora fazer um grande pare­cer, que levou mais de um ano a fazer, sobre as zonas cos­tei­ras. Por­tu­gal está a per­der área nas zonas cos­tei­ras, per­deu 14 qui­ló­me­tros qua­dra­dos nos últi­mos 30 anos, mas depois, quando se fazem audi­ções, vêm pre­si­den­tes de ins­ti­tui­ções, a con­versa é sem­pre muito sim­pá­tica, cor­dial, mas depois a ação é extre­ma­mente difí­cil”, refe­riu Filipe Duarte San­tos.

“O clima medi­ter­râ­nico e, em par­ti­cu­lar, o clima por­tu­guês, é carac­te­ri­zado por uma vari­a­bi­li­dade de anos com muita pre­ci­pi­ta­ção a alter­nar com anos de seca”, afir­mou Car­los Câmara, inves­ti­ga­dor do Ins­ti­tuto Dom Luiz da Facul­dade de Ciên­cias da Uni­ver­si­dade de Lis­boa. Salie­n­tou que “o ciclo da água vai tor­nar-se mais intenso exa­ta­mente por­que uma atmos­fera com gases com efeito de estufa é mais energé­tica e vai poten­ciar anos chu­vo­sos com epi­só­dios extre­mos de chuva, anos secos com epi­só­dios extre­mos de seca”. Car­los Câmara apon­tou que o pro­blema não se vai resol­ver a curto prazo, por isso, a alter­na­tiva é agir “por meio de ações de miti­ga­ção e adap­ta­ção.

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Flo­resta de pro­du­ção com estra­té­gia de con­ser­va­ção

“O pro­jeto CCFORBIO é uma das faces do CESAM, Cen­tro de Estu­dos do Ambi­ente e do Mar da Uni­ver­si­dade de Aveiro, por­que repre­senta a inte­ra­ção entre finan­ci­a­do­res de natu­reza dis­tinta, um pri­vado, como a Fun­da­ção Bel­miro de Aze­vedo, e outro público, a Fun­da­ção para a Ciên­cia e a Tec­no­lo­gia. Ao mesmo tempo, tra­ba­lha em cola­bo­ra­ção com vários ato­res e par­cei­ros locais inte­res­sa­dos na ciên­cia que desen­vol­ve­mos”, expli­cou Ama­deu Soa­res, dire­tor do CESAM. O pro­jeto decorre numa área de pinhal, em Ovar, que ardeu em 2017 e estava inva­dida por acá­cia-lon­gi­fó­lia. Come­çou pelo con­trolo de espé­cies inva­so­ras, pela plan­ta­ção de espé­cies pro­te­gi­das, como o samouco e a cama­ri­nha, e pela recu­pe­ra­ção do coe­lho-bravo, tam­bém pro­te­gido nesta zona. No caso das acá­cias, foram ainda tes­ta­das estra­té­gias de reu­ti­li­za­ção e rea­pro­vei­ta­mento.

Como explica Bruna Oli­veira, inves­ti­ga­dora do CESAM, “o pro­jeto CCFORBIO inte­gra todas as com­po­nen­tes do res­tauro eco­ló­gico, desde o dese­nho de toda a inter­ven­ção com deci­so­res polí­ti­cos e agen­tes locais até à moni­to­ri­za­ção por dete­ção remota, com recurso a dro­nes e saté­li­tes, e à reco­lha de infor­ma­ção sobre os vários aspe­tos da bio­di­ver­si­dade desta zona”. Segundo a inves­ti­ga­dora, o pro­jeto enqua­dra-se e até ante­cipa o que “será a lei do res­tauro da natu­reza, por­que temos uma flo­resta de pro­du­ção em que intro­du­zi­mos a com­po­nente da con­ser­va­ção, fazendo uma aná­lise custo-bene­fí­cio”.

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Os novos pro­du­tos sus­ten­tá­veis do euca­lipto

O Agro­por­tal, pla­ta­forma de infor­ma­ção agrí­cola e flo­res­tal, foi o meio onde a jor­na­lista Sara Peli­cano publi­cou uma repor­ta­gem sobre a flo­resta de euca­lipto plan­tada e gerida, com o título “Flo­resta da Ges­tão Ativa no Ter­ri­tó­rio aos Novos Bio­pro­du­tos de Valor Acres­cen­tado”. Como expli­cou a jor­na­lista, o fator dis­tin­tivo estava no termo “gerido”, uma vez que essa dimen­são é deter­mi­nante para o desen­vol­vi­mento de uma eco­no­mia de base flo­res­tal. “Esta eco­no­mia, por um lado, leva pes­soas ao ter­ri­tó­rio, tor­nando-o mais resi­li­ente, inclu­sive face aos incên­dios, e per­mite ati­vi­da­des como a pas­to­rí­cia, a api­cul­tura ou até o turismo”, disse Sara Peli­cano.

Mas um dos prin­ci­pais eixos do artigo está na ver­tente indus­trial, que hoje já não se limita ao papel e à madeira. A inves­ti­ga­ção e o desen­vol­vi­mento per­mi­ti­ram o sur­gi­mento de novos com­po­nen­tes e pro­du­tos, como fibras usa­das na indús­tria têx­til, con­tri­bu­indo tam­bém para tor­nar este setor mais sus­ten­tá­vel, ou emba­la­gens de celu­lose mol­dada, mais ami­gas do ambi­ente. “Esta é a grande dimen­são da flo­resta que qui­se­mos mos­trar. Flo­resta de euca­lipto, sim, mas plan­tada e gerida, o que per­mite criar valor acres­cen­tado para a socie­dade”, con­clui Sara Peli­cano.

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A impor­tân­cia da ges­tão cole­tiva do ter­ri­tó­rio

Cri­ada em 2009, a Orga­ni­za­ção Flo­res­tal Atlan­tis (OFA) é uma asso­ci­a­ção de desen­vol­vi­mento flo­res­tal sem fins lucra­ti­vos, sedi­ada em Can­ta­nhede, com qua­tro gabi­ne­tes de aten­di­mento em Can­ta­nhede, Mea­lhada, Oli­veira do Bairro e Ara­zede. “Os nos­sos ser­vi­ços vão desde o apoio ao pro­pri­e­tá­rio nos aspe­tos mais buro­crá­ti­cos e téc­nico-legais até ao apoio na ges­tão, manu­ten­ção, cer­ti­fi­ca­ção, con­sul­to­ria e ins­ta­la­ção”, afirma Jorge Sousa, coor­de­na­dor téc­nico da OFA.

A difi­cul­dade de gerir a flo­resta num ter­ri­tó­rio muito frag­men­tado, em con­texto de mini­fún­dio, é uma das prin­ci­pais pre­o­cu­pa­ções dos pro­pri­e­tá­rios flo­res­tais. Nesse sen­tido, a OFA criou, em 2024, o pro­jeto Uni­da­des de Ges­tão Con­junta (UGC), que pre­tende res­pon­der à falta de escala e à difi­cul­dade da ges­tão indi­vi­dual, pro­mo­vendo uma abor­da­gem cole­tiva do ter­ri­tó­rio. “O pro­jeto é de ade­são volun­tá­ria e conta com apo­ios para a ins­ta­la­ção, a ges­tão e a manu­ten­ção dos povo­a­men­tos flo­res­tais”, explica Jorge Sousa. Numa pri­meira fase, a asso­ci­a­ção con­tou com o apoio da The Navi­ga­tor Com­pany e, mais tarde, can­di­da­tou-se a fun­dos comu­ni­tá­rios para desen­vol­ver a manu­ten­ção das áreas de pinho. “Pode­mos gerir o mini­fún­dio, mas temos de ter uma pers­pe­tiva de escala, para tor­nar todo o pro­cesso de ges­tão mais efi­ci­ente e mais sus­ten­tá­vel. Gerir de forma des­gar­rada e indi­vi­du­a­li­zada não é o cami­nho indi­cado para o futuro”, con­si­dera Jorge Sousa.

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Apro­xi­mar as novas gera­ções da flo­resta verde

O pro­jeto Edu­ca­tivo e Ambi­en­tal Mater­ni­dade de Árvo­res foi ini­ci­ado por Eli­ana Silva, pro­fes­sora e coor­de­na­dora, no ano letivo de 2021/2022. Aos alu­nos do pri­meiro ano com­pete fazer a semen­teira de cerca de 500 a 800 árvo­res autóc­to­nes, como o car­va­lho-alva­ri­nho e o sobreiro. Depois, envol­vem-se no tra­ta­mento das plan­tas, e, geral­mente, em novem­bro, plan­tam as árvo­res na Serra do Gerês, com a cola­bo­ra­ção direta da Casa Comum da Huma­ni­dade, lide­rada por Pedro Sousa, e do agru­pa­mento de bal­dios da Serra do Gerês. Este pro­jeto sur­giu assente em dois pila­res. O pri­meiro é o pilar humano. Como explica Eli­ana Silva, “os alu­nos cada vez mais se afas­tam das ori­gens, das flo­res­tas, do espaço exte­rior, e apro­xi­mam-se do mundo digi­tal e vir­tual. E que­re­mos fazer essa apro­xi­ma­ção”. O segundo pilar é a flo­resta. “Que­re­mos miti­gar, de alguma forma, o impacto nega­tivo que o ser humano tem na flo­resta, cá em Por­tu­gal, todos os anos. Não esta­mos só a plan­tar árvo­res, esta­mos a plan­tar o nosso futuro e a nossa mis­são é a flo­resta verde” con­cluiu Eli­ana Silva.

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O poder do arre­fe­ci­mento verde

O pro­jeto Labo­ra­tó­rio de Arre­fe­ci­mento Verde assenta num viveiro de árvo­res autóc­to­nes e pro­cura levar estes con­te­ú­dos para as aulas de Físico- Quí­mica, mas tam­bém de Ciên­cias Natu­rais, Bio­lo­gia e Geo­gra­fia. No estudo das alte­ra­ções cli­má­ti­cas e da con­cen­tra­ção de CO na atmos­fera, os alu­nos veri­fi­ca­ram que a evo­lu­ção deste gás ao longo do ano não é linear, regis­tando-se um decrés­cimo entre abril e outu­bro. Segundo Ernesto Maga­lhães, pro­fes­sor e coor­de­na­dor do pro­jeto, essa vari­a­ção explica-se pela fotos­sín­tese rea­li­zada pelas árvo­res, sobre­tudo no Hemisfé­rio Norte, que con­tri­bui para a redu­ção do CO na atmos­fera. “É impres­si­o­nante veri­fi­car que, entre abril e outu­bro, os níveis de CO des­cem devido ao papel das árvo­res. Daí a impor­tân­cia e a urgên­cia de plan­tar mais árvo­res”, con­si­dera Ernesto Maga­lhães.

Fonte: Jornal de Negócios

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